segunda-feira, agosto 07, 2017

Cotãozinho

Em 20 anos a escrever para televisão, já me deparei com incontáveis situações em que pessoas ou instituições não aceitam participar em séries, ou não permitem que lá se grave, por acharem que a sua credibilidade está a ser posta em causa - mesmo quando não há paródia envolvida - só porque se trata de ficção. Quando há paródia, isso então, é a loucura. Acontece - e ainda bem - o contrário. Lembro-me, por exemplo, do enorme e saudoso Vasco Granja, que não só aceitou fazer de si próprio num sketch que fizemos para o Herman Enciclopédia, como ainda improvisou por cima do texto, acentuando ainda mais a paródia. Sinal de grandeza, em contraste com a sobranceria que abunda (gostava de deixar aqui link para esse sketch, mas não encontro um onde a rábula apareça completa).

Pense-se nos míticos celebrity roasts apresentados por Dean Martin, na NBC, entre 74 e 84. Veja-se, por exemplo, esta pequena amostra do roast de Frank Sinatra. Há tantas lendas presentes que se pode falar em Olimpo: Lucille Ball, Gene Kelly, Don Rickles, Orson Welles, Dom DeLuise, Jimmy Stewart, Milton Berle, Ernest Borgnine, Ronald Reagan, Peter Falk, para mencionar só alguns. Todos a fazer roast, a levarem por tabela, e a divertirem-se genuinamente com isso. Cá em Portugal, já aconteceram dois roasts, um deles exibido na Radical, mas a norma continua a ser o avesso. "Ah, mas ó Filipe, nos States essas coisas sempre foram diferentes, é uma questão cultural". Pois é. Ou, neste caso, da falta dela. Quando alguém se leva demasiado a sério, normalmente é sinal de que tem razões mais do que suficientes para não sê-lo. E não é por se recusar a participar em auto-paródias que vai ganhar respeito.

Há pó ao nível do cotão em muita cabecita, e é pena porque, parecendo que não, o pó pesa e acaba por atrasar aquela coisa que se chama andar para a frente.

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